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Testemunhos
     

Nada será como d'antes!

Viver é uma maravilha, quando tudo corre de acordo com as nossas conveniências (construímos uma carreira, constituímos uma família, conquistamos amigos num determinado meio...) mas, por vezes, algo se passa à nossa volta que a pode transformar radicalmente (ou quase radicalmente), sem que o possamos evitar.

Quando assim é, logo atrás surgem uma quantidade de problemas, uma confusão de sentimentos, uma ausência daquilo que éramos e que já não somos.

"Bloqueio"... Talvez seja o termo adequado para designar aquela doença a que a medicina legal designa de Afasia.

No Ser Humano, as consequências provocadas pela afasia são de difícil resolução, muitas vezes ficam mesmo aquém das capacidades dos técnicos... Falo de médicos de Clínica Geral e das Especialidades, nomeadamente de Neurocirurgia... Que não sabe quais os danos nem como se podem recuperar.

E são outros técnicos, aparentemente de menor relevo, quer a nível profissional, quer do conhecimento geral, mas que justiça e louvor lhes seja feita, porque são eles que conseguem alterar parcial e muitas vezes, quase completamente a vida de um doente Afásico, dando-lhe coragem, força e esperança. Para além do seu empenhado papel de Terapeutas da Fala, conseguem desdobrar-se em psicoterapeutas, conselheiros e amigos... Falo isto, porque não foi o Neurocirurgião, que operou a minha mãe a um Aneurisma, que me explicou as alterações sofridas no seu interior, logo após a cirurgia... Foi uma "Bomba" que estoirou e consequentemente a perda de todas as possibilidades de comunicação: Ler, escrever, falar, compreender e explicar-se.

Queria, naqueles momentos angustiantes poder, através de um passe de magia, poder alterar todo o embromar, que sufocava... Foi um sofrimento inexplicavelmente doloroso, porque eu não entendia a transformação quase radical que a minha mãe tinha sofrido, não sabia quais os danos que o interior dela sofrera e não sabendo isso, não podia ajudá-la...

Sentia-me impotente, perdida, sózinha... Do Neurocirurgião apenas consegui arrancar expressões como: "Roma e Pavia não se fizeram num dia" ou "Está a melhorar, não está?".

Tem sido com a ajuda de Terapeutas da Fala, que me explicaram o que é, de facto, a afasia (os vários tipos, como os podemos ajudar...), quer do Hospital de S. José, quer da Associação Nacional de Afásicos (A.N.A.), que a minha mãe recuperou parte do que perdera.

Tal como os golpes nos deixam cicatrizes mais ou menos extensas na pele, os da afasia são golpes gigantescos no organismo, mas não visíveis, que dificilmente saram.

As suas manifestações assemelham-se a um estado ébrio, não sendo por isso, reconhecidos como gente e ficando, por vezes, num desespero preocupante. Estas pessoas vivem um conflito absolutamente digno de respeito pela gravidade da sua natureza, que é o ficarem mais isolados no seio de uma sociedade egoísta, porque as pessoas não estão educadas para apoiar, sendo solidárias com os Afásicos e até com outros doentes que são postos à sombra de uma sociedade dita progressista e evolutiva.

A afasia incapacita, mais ou menos (depende dos danos), para o resto da vida. Incapacita mais que a cegueira ou a surdez porque, na afasia, é a compreensão e o fazer-se entender, que traem o afásico... É algo, dentro de si, que não se consegue fazer ouvir... Está lá dentro tudo o que aprenderam durante a vida, mas não sai... E é inaceitável que figure, na Tabela Nacional de Incapacidades, com uma taxa entre os 0,30-0,50 quando na prática, fica com uma Incapacidade Total para o exercício de diversas actividades, até domésticas (como acender o fogão, saber qual o talher para comer a sopa, se o sabonete é para lavar o corpo ou a cabeça, trocar nomes ou nem sequer conseguir dizê-los...)...

Como é que um professor, um cirurgião, um jornalista, um advogado, um terapeuta da fala, poderão ter perspectivas de continuar a sua profissão, se apanhados por uma "corda" desta envergadura?

O afásico não perdeu a consciência, mas a consciência daqueles que os limitam, mais do que aquilo que eles estão, é penosa... Talvez por falta de esclarecimento (informações e conselhos sobre as formas mais correctas de enfrentar e melhorar a doença) e sensibilização acerca das características da mesma, há muitos Afásicos abandonados sem saberem que o são e que com uma ajuda adequada podiam ver-se mais desafogados e compreendidos por aqueles que os rodeiam (Pais, filhos, amigos, conhecidos...).

Estou convencida de que a ignorância é a mãe de todas as limitações e é dever de cada um de nós combatê-la.

O estado de "Bloqueio" é como se fosse uma paragem no tempo e no espaço na vida daqueles que dele padecem.

Embora não deixando de viver constrói-se, à nossa volta, (porque nós também sofremos) um mundo à parte... De dimensões menores que as estabelecidas pela realidade, onde tudo se altera: Desde a fonética até às normas e comportamentos perante a sociedade. Esquece-se, por completo, tudo aquilo que fora uma existência rica em movimento, caindo-se num abismo de solidão e depressão em que, de concreto, nada se sabe sobre o que está na origem de toda esta convulsão diabólica, que arrasta o afásico para um abismo aparentemente irreversível ou pelo menos, de difícil retrocesso.

Para mim, a afasia é a mais destrutiva barreira à comunicação humana, porque as palavras emitidas traem o que a mente quer debitar.

A afasia assemelha-se, um pouco, ao sono da lagarta, que espera um dia acordar transformada numa bonita borboleta...

Também os Afásicos parecem estar adormecidos, só que, nestes casos, quem espera pelo fim desse sono, não parecem ser só os que padecem de afasia, mas também, aqueles que convivem de perto com eles. O aparecimento súbito destes "Bloqueios" arrasta consigo famílias inteiras para um sono sem regresso aparente, o que torna muito difícil repor a normalidade nos lares, consequentemente, distorcidos. Temos no entanto de fazer face às contrariedades da vida, de uma forma saudável para que os Afásicos, que nos rodeiam, se sintam mais integrados e próximos da normalidade da vida que tarda em aparecer.

Estou como diz o povo: "Enquanto há vida há esperança e esta é a última a morrer".

Lisboa, 17 de Julho de 1998

Conceição Matos, familiar de pessoa com afasia

 

 
     
 
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