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Testemunhos
     

“...Faço para estar melhor e estou, não estou?”

Conceição Matos (*) Olá Maria José!

Maria José Olá...(abrindo um enorme sorriso!)

CM Há quanto tempo é afásica?

MJ Há 1, 2, 3, 4, 5,! (conta pelos dedos) já há muito...

CM Porque é que ficou afásica?

MJ Não era para mim... (explica, gestualmente, que foi durante uma cirurgia – apontando para a costura, que lhe circunda todo o lado esquerdo da cabeça, que vai da testa até por detrás da orelha formando uma lua em quarto crescente).

CM Como é que se sentiu na altura?

MJ É muito triste, muito triste... eu fazia tudo (explica, pegando em livros, papéis e lápis... que escrevia poesia, lia...) agora... (mexendo na boca) nada!

CM Que dificuldades teve, nessa altura?

MJ Eu não via nada (quer dizer, não compreendia o que lhe diziam) agora, vejo tudo!

(Agora, quer ela dizer, compreende tudo).

CM As pessoas de família e os amigos, ajudaram?

MJ Oh... (com a lágrima no olho) pouco... (pega na sua agenda com fotografias) estes todos, nada! Há pessoas muito más... estamos boas, tudo bem, estamos mal (quer dizer, doente) não há nada! (quer dizer, não ligam, não ajudam).

CM Mas está melhor...

MJ Oh, muito melhor (Abre um enorme sorriso e cruza as mãos sobre o peito) muito melhor... não posso é falar bem como eu quero, mas faço tudo, eu já faço tudo (faz os gestos de quem passa a ferro, cozinha, limpa a casa, vai às compras...) e o meu filho (quer dizer filha – vai até ao telefone e levanta o auscultador) às vezes, faço tudo para ela... (quer dizer, que faz alguns recados à filha, pedidos pelo telefone) e faço tudo muito bem (novamente as mãos sobre o peito e uma festa no rosto da filha), não é filho? (interrogando-a) eu sei que não fico boa... eu sei... mas estou muito melhor e há-de ir...

Deus é que sabe... (sempre com um sorriso contagiante) e vou para todo o lado... vou aqui, vou ali... vou à minha filha que é para além... E vou sózinha (Vai a casa da filha, que ainda é longe) e vou aqui e aqui (torna a socorrer-se da agenda para explicar, que vai ao Cardiologista, ao Neurocirurgião...) já sou capaz de ir a todo o lado sozinha (di-lo com uma expressão de orgulho, de autonomia e de conquista).

CM O que faz, no dia-a-dia, para além das tarefas de casa?...

MJ Estou aqui ao pé de vocês... (vem á Associação, ao “Soltar as Palavras”, à terapia ocupacional e ao Grupo de Entre-Ajuda, etc...) gosto muito de todos e faço isto (levantando-se, mostra postais de Natal, que pintou; vai até ao frigorífico mostrar o salame de chocolate, que fez sozinha, para o Grupo de Entre-Ajuda do dia seguinte, aponta para o computador onde escreve...) e gosto muito, faço para estar melhor e estou, não estou? (questionando a Sónia, Terapeuta da fala, que lhe acena afirmativamente e com um sorriso) e vou aqui, ali... (dirigndo-se para a janela, aponta o caminho do supermercado onde foi fazer compras para a Associação com a Terapeuta da fala) vejo (mostra a lista de compras) e vou... buscar tudo sozinha!

A afasia surpreende de maneiras diferentes... há diversos tipos de afasia...

Há os que conseguem explicá-lo, por escrito; há os que conseguem ditar para os outros escreverem e há os que explicam á sua maneira, como é que a afasia se manifestou na sua vida...

Neste caso a Maria José, explicou-o com o seu vocabulário limitado e com grande expressividade de gestos e de simpatia, entendidos / “traduzidos” / escritos, pela filha.

 

(*) familiar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     
 
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