página inicial quem somos o que oferecemos a afasia como comunicar testemunhos publicações contactos  
 
     
         
 
 
Testemunhos
     

”Força interior e ajuda familiar” - Por Conceição Matos

Após a reforma, como Metalúrgico, o “José” passou a dedicar-se ás suas duas grandes paixões: A caça e a horta, onde investia a maior parte do seu tempo.

Chegámos ao dia 3 de Novembro de 1994 e o “José” e os amigos fizeram-se à estrada como de costume... Mas o “José” começou a sentir o seu braço fraquejar até à insensibilidade, o que os fez voltar mais cedo para casa, para surpresa das mulheres.

O “José trazia consigo um coelho e o braço a quedar-se.

A esposa, uma mulher determinada e forte, chamou uma ambulância e em escassos minutos estavam no Hospital. O diagnóstico, após observação médica, foi de “nervos no braço” e a marcação de uma consulta de Neurologia para vinte dias depois.

Ultrapassado o susto voltaram para casa, já a altas horas da noite.

O sono não seria longo e, verdade ou não o nosso quotidiano sofre inesperadamente, golpes tão profundos, que nem os mais sofisticados bálsamos conseguem sarar... Acordou, subitamente, tomada por um estranho som, que ecoava por todo o quarto. Abriu os olhos e não quis acreditar naquilo que os seus olhos viam: o seu marido parecia ter sido vítima de uma caçada mirabolante... Não era um pesadelo ou qualquer coisa no género... Olhava o seu marido aterrorizada: O “José” não conseguia articular palavra... não se mexia, transpirava imenso...

De volta ao Hospital... Foi-lhe diagnosticado um AVC por trombose... Uma vil trombose acompanhada de hemiparésia acentuada dos membros direitos e de uma afasia global.

Começou aqui a revolta, o caminho pantanoso, a realidade impensável...

Eram momentos, deveras angustiantes provocados pela distância da palavra...

O “José” e a esposa tiveram de dar passos para os quais, não se encontravam minimamente preparados: A fisioterapia, quatro vezes por semana, permitiu-lhe deixar a cadeira de rodas, de seguida as canadianas e depois a bengala...

Quanto à afasia... Era um termo novo, porque totalmente desconhecido. Fez terapia da fala, no Hospital de Santa Maria, durante cerca de um ano. A evolução foi significativa a nível de compreensão e expressão oral. Teve alta, mas o processo de recuperação não parou.

Depois da reabilitação, por sucessão normal de acontecimentos e também por necessidade imperiosa... a terapeuta da fala do “José” indicou-lhe a Associação Nacional de Afásicos (ANA).

“Foi aí que soube o que é uma afasia e que o meu marido era um afásico, que senti haver esperança!.” E a esperança tinha razão de ser, pois foi na ANA, que o “José” avançou com a sua primeira palavra, após ter tido a trombose: “Não”. Não a quê? A um passado, que não era motivo para pensamentos permanentes e lamentações!

Um verdadeiro novato, nas andanças da afasia... Foi na ANA, que lhe afastaram os medos e o integraram. Foi ali que o ajudaram a reabilitar... A não cruzar os braços, a ser persistente e a lutar pela sua dignidade pessoal.

O “José”, apesar das limitações que o passaram a acompanhar, não deixou de ir ao café e ao Centro de Apoio como dantes, não se marginalizou nem o marginalizaram...

Comrçou a recolher sucata para vender, no ferro velho! A força e a coragem fizeram dele um homem respeitado e admirado por todos os que sempre o conheceram.

Agora, já só frequenta a ANA, onde encontra outros tantos casos semelhantes, onde se trocam experiências, onde se ajudam a auto-reabilitar emocionalmente... O que, no fundo, é a parte mais profundamente atingida. Neste caso, são as palavras de esperança, que brotam das bocas de uns e de outros... que reforçam e estimulam sentimentos esmagados pela dor, solidão, incompreensão e angústia.

A afasia não atinge só o discurso como ainda pode interferir na leitura e na escrita, o que é extraordinariamente limitamte.

No caso do “José” este aspecto não se colocou uma vez tratar-se de uma pessoa sem escolaridade.

A ANA visa, ao mesmo tempo, a integração familiar e social do afásico.

Hoje, o “José” não abdica de nada, faz uma vida de acordo com o seu tempo, o seu passo e o seu “discurso”.

 

 

 

 

     
 
logotipo heldersign